Por Redação com Assessoria
José Medeiros
Uma audiência pública marcada para o dia 7 de abril, às 14h, deve colocar no centro do debate o uso de madeira oriunda de desmate legal como fonte de biomassa em Mato Grosso. O encontro é promovido pelo Ministério Público do Estado de Mato Grosso (MPMT) e busca discutir os impactos ambientais, legais e econômicos da prática, autorizada por uma instrução normativa da Secretaria de Estado de Meio Ambiente de Mato Grosso (Sema) desde 2022.
A normativa permite que grandes consumidores utilizem madeira proveniente de supressão vegetal legalizada, o que tem impulsionado o consumo desse tipo de insumo nos últimos anos. No entanto, especialistas e representantes do setor florestal apontam que a prática entra em conflito com o Código Florestal Brasileiro, que não prevê o uso em larga escala desse tipo de biomassa por grandes consumidores.
Presidente da Associação dos Reflorestadores de Mato Grosso (Arefloresta), Fausto Takizawa alerta para possíveis prejuízos à economia estadual. Segundo ele, mercados internacionais têm restringido a compra de produtos ligados ao desmatamento, ainda que autorizado por lei. “Isso pode comprometer setores importantes da produção mato-grossense voltados à exportação”, destacou.
A biomassa é amplamente utilizada como fonte de energia em agroindústrias, como secadores de grãos e usinas de etanol de milho. Pela legislação federal, grandes consumidores — aqueles que utilizam mais de 24 mil metros estéreos por ano — devem recorrer a madeira de reflorestamento ou manejo florestal sustentável.
Dados do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) indicam crescimento no consumo. Em 2025, foram utilizados cerca de 14,16 milhões de metros cúbicos de biomassa no estado, aumento de 4% em relação a 2024. No entanto, apenas 47,5% desse volume teve origem em florestas plantadas, enquanto a maior parte veio de outras fontes não detalhadas publicamente.
A falta de transparência sobre a origem da madeira também é alvo de críticas. Representantes do setor cobram da Sema informações mais claras sobre o volume de madeira nativa autorizado e questionam a capacidade de fiscalização do transporte desse material.
Para especialistas, o avanço do uso de madeira nativa contraria o potencial de Mato Grosso na produção sustentável por meio do reflorestamento, especialmente com o cultivo de eucalipto. Atualmente, a Arefloresta reúne cerca de 30 associados, responsáveis por mais de 74 mil hectares de florestas plantadas no estado.
Com o tema “Biomassa e Sustentabilidade: o uso de vegetação nativa nos Planos de Suprimento Sustentável”, a audiência será realizada de forma híbrida no auditório da Procuradoria-Geral de Justiça, em Cuiabá, com transmissão ao vivo para o público interessado.